terça-feira, 16 de novembro de 2010

IV

Como estás solidão? Os teus cabelos ainda envolvem o aroma que enamora os poetas, as criaturas que o único lugar é em ti, em si mesmos, no precipício da moralidade.
Reservo-te a melhor cadeira da minha mesa, pois já és o convidado habitual.
Não tenho muito a partilhar contigo, a não ser as sucessões de acontecimentos decorridos à momentos atrás. Será? Não são muito interessantes. Diverti-me, ri-me muito, mas não serviram de quase nada. Continuo cansada, agora que o corpo pede mais que a alma. Estas luzes retiram o deleite da tua companhia. São demasiado fortes e artificiais, tal como a maior parte delas em contos e ditos de muitas pessoas.
O risco não corre o risco de se riscar a si próprio. Disseste tu no intervalo da minha conversa. Não sei o que te diga acerca disso. É mais uma brincadeira do que uma frase verdadeira.
Acompanhas-me mais uma vez neste caminho? A noite está bela e fria. Este serão explode de monotonia! Só as pedras se irão queixar.
Estás viva ! Como é bom ter-te aqui comigo ! Nestas palavras tornas-te ainda mais bela. Vejo-te dentro de uma caixinha. O fundo é negro e tem um palco de madeira verdadeira, nunca envernizada. Lá, saltas e danças com o teu alvo vestido e os teus ruivos cabelos.
Desesperas se eu, por momentos, deixar de te contemplar.
Não tens sombra, mas existes.

III

Minha criancinha pagã,
a tua tenra carne ainda se afaga na minha.
Costas despidas. Um oceano de voluptuosidades afoga o que eu pensei que nunca se derrubaria. A minha resistência face a ti, aos teus actos, tornou-se nula. O veneno sedutor encontra-se nas tuas palavras sussurrantes.
Contrastas as minhas vontades.
Superaste todos os egos vencidos. Agora és o herói ídolo maior deles todos.
Teces para mim os maiores enredos. Os teus escritos tornar-se-ão épicos, imortais. Salvadores da imbecilidade da nossa geração e do caos decadente do meu interior.
A tua paciência e pacificidade reduzem a minha vontade de te perturbar.
És mais do que único, uma imagem apenas perceptiva num cruzar de surreais ideias.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

II

Encosto-me ao muro de granito. Mas nada de mal acontece. Apenas o depois de uma fita já antes vista, que muda o rumo do pensamento.
A espera não será em vão. Há o caminhar, esse que sustenta os meus doridos joelhos.
As nuvens mostram-se num fundo que não existe.
Há também o medo que prevalece sempre ao lado de um atento olhar que percorre periféricamente a rua.
Aqui as casas são bonitas, por fora, tal como esta inexplicável tensão.
Sou também eu uma vítima da era moderna.
Nasci no seu leito e fui emporrada pelos seus pés mecanizados.
Estou sozinha neste assustador mundo invicto.

domingo, 7 de novembro de 2010

I

Longe da interminável redenção que flutua no vácuo do orgulho que vencido chora, prudente desatina na mágoa outrora cretina.


Sem poder voltar atrás oscilo na correcção das palavras. Prefiro sempre o original, mesmo que incorrecto.


Não há como ser Homem para ter medo.


Não há como o medo, para ainda existir em nós a consciência da nossa banal e comum superficialidade humana.


Temo que em vós me envolva num enredo sem fim, que pela sombra escreve e dita.


A evolução irremediável transporta-me para uma escrita mais subconsciente.


Quem temer o obscuro, o inantigível, o labirinto misterioso do caos, temerá também a minha escrita.


Pois eu também a temo.


Temo que ela um dia não evolua num linear perfeito. Que fique apenas por palavras expulsas do orifício da caneta.


Que não passe de um trivial e absoluto desabafo incorporado na fala inaudível, que não teme a invocar no meu pensamento.


Mas é graças a isso que sou assaltada por breves essências de felicidade, loucura e nostalgia.


Creio que não provocarei mais distúrbios interiores, sabendo que estes apenas existem quando menos espero , pois não são auto-realizáveis.


Tudo o que outrora escrevi aqui é anulado num presente que não existe e num futuro que não quer a sua existência .